Publicado por: maldeiaexploratoria | 12/04/2014

Shaper: um achado em Arraial D`Ajuda

SUPHá cerca de um ano estava em meio a aulas e mais aulas numa Cuiabá/MT intransitável. Após difícil publicação de afastamento do curso de Direito da UFMT para continuidade do doutoramento resolvemos fugir para Arraial D`Ajuda e Trancoso, sul da Bahia. Meu ponto de chegada e saída, meu porto, local em que minhas meninas ficariam enquanto estivesse indo e vindo entre Rio de Janeiro (IESP-UERJ) e sul da Bahia. Assim foi por um semestre. Nada fácil para a vida de um professor, embora seja muito agradável chegar no Rio e em Arraial. Por um semestre mal conheci Arraial, apenas dois ou três dias em casa por mês. Fins de 2013 e início de 2014, com o cumprimento de mais  duas disciplinas cá estava eu por um tempo maior junto aos meus. Tempo de arrumar a casa, jardineiro, pedreiro, pintor etc… Isso, talvez muitos de vocês não saibam e nunca tenham presenciado o Antonio Armando faz-tudo, algo muito natural em mim, sempre esteve presente desde tenra idade em fazendas com meu avô, pai de minha mãe. O lado mais conhecido, de estudante esforçado, leitor e escritor, acabou ficando mais exposto por ter me tornado professor, mas esse lado se associa também ao meu outro avô, pai de meu pai. Assim, em mim, se faz presente esses dois mundos indissociáveis, o fazer com as mãos e o refletir sobre o mundo e as coisas. Sempre andaram juntos em mim.

Pelos idos dos anos 80 era meio febre entre os moleques ter carteira em relevo de plástico, com adesivos e marcas usadas por surfistas (Quiksilver, Hangloose, Billabonc, etc.). Vinha eu de Rolândia/Pr e praia até então apenas algumas vezes durante o ano em Matinhos e Caiobá (litoral do PR). Ainda menino e pobre demais para poder pensar em ter uma prancha de surf ou mesmo fazer uma. Em 1986 mudamos para Cáceres/MT. Como eu já nadava durante alguns anos no Concórdia Clube de Rolândia, e depois na ACEL de Londrina, logo acabei na turma da natação do Iate Clube de Cáceres, viajando e competindo até meus 21 anos. Por ali conheci amigos que até hoje estão comigo como Márcio Montijo, Paulo Vinícius, Ulisses Castrilon, Laerte Castrilon, Giovanni Albuquerque, tantas pessoas…

Durante algum tempo era rotina sair de casa, passar na casa de Giovanni Albuquerque, ouvir U2, Titãs, Ramones, etc. e depois sair correndo de bike a caminho da natação. Gio, nesse tempo, já tinha arriscado algumas ondas na cidade de Santos/SP onde sempre passava suas férias. Quando voltava era só empolgação, contava das suas aprendizagens com o surf. Fui ouvindo tudo aquilo e também a zoação, dos outros amigos, da gíria do Gio, sempre com um monte delas. Mas, eu ouvia tudo aquilo e a vontade de surfar sempre ficou impregnada e junto com ela a curiosidade de saber como se fazia uma prancha de surf. Em pleno Mato Grosso isso soava muito distante e complicado de ser realizado, ainda mais pra um moleque que ficava indo pra fazenda, sendo meio preparado pelo avô (mestre) – como neto mais velho que eu era –  a se virar na lida no campo. Era tudo muito sonho e distante. Gio nesses retornos de Santos trazia revistas, lembro mais FLUIR. Ficávamos muitas vezes vendo, lendo, ouvindo as músicas e recortando marcas pra colocar na carteira.remos

Se foram cerca de 25 anos, cá estou em Arraial D`AJuda/BA. Ao mudar-me, logo na primeira semana, um senhor gente boa, risada tímida mas larga, boa praça passando com seu cavalo me dá as boas vindas, se colocando à disposição caso precisássemos de alguma coisa, indicando ser sua casa no final da rua. Assim foram passando os dias, sempre encontrava-o e o cumprimentava, não esqueci o nome desde início, percebi um semblante leve e me simpatizei. Como passava todos os dias em frente de casa com o cavalo, imaginava ser alguém que curtia cuidar de cavalos, por vezes passear na praia ou era Cowboy. Nunca havia parado para dialogar mais de perto. Certo dia, minha irmã Selene, me avisa que havia mandado fazer uma prancha de SUP (Stand Up Padle) e que ia passar lá no Jorge pra ver como estava. Me chamou pra ir. Lá fui. Não havia relacionado o nome Jorge que passava em frente de casa com o Jorge shaper. Surpresa ao ver que o Shaper que havia feito a prancha da Selene era o meu vizinho que passeava com cavalo. O senhor que eu já havia simpatizado era o shaper!!!

Conversamos brevemente e me explicou como estava difícil manter alguém pra fazer o trabalho e ajudá-lo, que havia escassez de mão-de-obra na região. Dialogamos rapidamente e fiquei de retornar pra prosear mais. Depois, já em casa, pensei eu, podia ter me oferecido pra trabalhar e aprender a shapear pranchas, algo que desde moleque sempre tive curiosidade. Patricia, minha cara metade, confirmou que eu devia mesmo ter me oferecido. Pronto! Nem dormi direito! Passei afoito, uns 3 dias depois, no ateliê e não o encontrei, estava tudo fechado. Coincidentemente encontrei Jorge no centro de Arraial e entabulamos uma conversa que duraria horas, não fosse os nossos afazeres, mas, ali mesmo me ofereci para ajudá-lo sob a condição de me ensinar a fazer pranchas. Aceitou com a generosidade própria de quem é sábio pela lida da Vida.

Jorge HupselNão sabia eu que teria tanta afinidade com Jorge Hupsel, num momento que já pensava ter muitas dificuldades de conhecer novas pessoas. Cá estou, trabalhando e aprendendo novas coisas advindas de velhos desejos adormecidos. Novas coisas com a sorte de ter como mestre um dos melhores shapers de pranchas e criador de remos (Remos Hupsel) do País, o primeiro surfista da Bahia, um homem simples, agradável, inteligente, sábio e de coração enorme que me recebeu e abraçou como se fosse um filho, e, pacientemente me ensina a arte de shapear e quicá de surfar (assim que eu conseguir fazer minha própria prancha com a ajuda do mestre, rs). Um prazer enorme de encontrar gente como Jorge Hupsel, aberto pro mundo e pras pessoas. Uma grande felicidade em poder dizer que felizmente a amizade prospera e vai criando rede de Seres-Pessoas-Sementes que disseminam seus fazeres, sorrisos. Feliz em poder compreender os laços de amizade que vão se formando ao longo da vida e mais feliz ainda em ter o amadurecimento para compreender que o importante nessa Vida é exatamente isso.

Obrigado Jorge Hupsel cultivarei sua amizade por longos anos!

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Responses

  1. Que legal, um belo encontro, uma bela história, conheço o Jorge Hupsel há mais de trinta anos e o reencontrei no face. PARABÉNS!! Rose

  2. Grande Jorge Hupsel! Ainda forte aqui em Arraial d’Ajuda até hojé e esta fazendo neste momento um sup com remo de madeiro para mim.
    Beijos, Ana


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