No trajeto Cuiabá-Cáceres, já próximo da Princezinha do Paraguai, começa a saltar aos olhos a maravilhosa paisagem poética que compõe o cenário exuberante da cidade. Rochas esculpidas pela natureza, serras com verdes belíssimos e árvores que solicitam contornos poéticos de significados existenciais. Adentrando ao formoso Rio Paraguai, em época de baixas águas, Cáceres ainda conta com maravilhosas praias, fauna pantaneira e flores estonteantes. Uma riqueza ímpar que em poucas regiões do mundo se observa. E as pessoas, bem se diga aqueles seres efetivamente de carne e osso, cujo significado de existência compartilha com os demais, Pessoas com maiúsculo. Poderia citar mais de 3 dezenas delas aqui que contribuem para que a convivência seja repleta de sabores, cheiros, sorrisos, amizade…
Imaginação nessas horas corre estradas celestiais longíquas e o “se” começa a fazer rotina, posto o real existente. Assim fez-se notícia mundo afora.
Há cerca de 60 anos uma cidade fronteiriça com a Bolívia, próxima da Capital de Mato Grosso, denominada Vila de São Luiz de Cáceres, com aproximadamente 40 mil habitantes iniciou um planejamento urbano e arquitetônico rústico que a tornou o lugar mais charmoso do mundo.
Há sistema de tratamento de água sem a utilização de química que entorpece as pessoas. O sistema de esgoto, realizado na década de 40, promove o cuidado necessário para não despejar dejetos no majestoso Rio que contorna toda a Vila. A água da chuva é reaproveitada para os cuidados dos jardins municipais e praças públicas que existem por todo lugar. A fonte de energia advém de mini geradores localizados nas dezenas de cachoeiras da Vila e proporciona, com larga sobra, a suficiência de energia à população. Em todas as residências rústicas há célula fotovoltaica de captação da luz para produção de fonte alternativa de energia. Em andamento na Vila um estudo para eliminação dos geradores e aproveitamento apenas da energia solar.
Todas as ruas não possuem asfaltamento, elas são de paralelepípedos, cuidadosamente recolocados a cada ano de modo que não forme desníveis insuportáveis para as charretes e as bicicletas. Aliás, o comum é o tráfego de bicicletas pelas ciclovias que corta toda a Vila até o seu Centro Urbano e Comercial de distribuição de Alimentos e Víveres.
As residências seguem dois modelos rústicos de casas: um fundado na arquitetura portuguesa que colonizou a Vila e outro um rústico em que a farta madeira do lugar foi utilizada (e preservada) para associar alvenaria em tijolos prensados (sem o uso de fornos) e vidros. Tornou a Vila um lugar estonteante na combinação e detalhes diferentes na composição das ruas.
Corta a cidade um córrego denominado Sangradouro e outro Sangra d’agua. Ambos foram utilizados para a sangra de bois a fim de exportar charque ao mundo. Fonte econômica já desgastada e vencida pelo tempo, mas que se mantém apenas em nome dos dois córregos que deságuam no Rio Paraguai. Não há dejetos em ambos, pois o sistema sanitário tratado impediu a poluição de modo que ao longo dele e em toda a sua lateral foram feitas jardinagens, praças, bancos e mesas para leitura e diálogo, além de árvores frondosas da região, em destaques para os Ipês brancos, amarelos e cor-de rosas.
O gramado que se impõe nas paredes dos córregos impede que ocorra sua vazante e ainda assim se houver a um sistema de drenagem que escoa a água da chuva para reaproveitá-la. Pelos bairros em que são cortados pelo Sangradouro e Sangra d’Água existem pontes simples e magníficas em sua arquitetura, pois permite o seu deslocamento se o fluxo de água for grande, porque é montada tão-apenas com encaixe dos tijolos frios.
A Vila não possui grande fonte econômica, localizada em apenas uma atividade, posto que prospera em razão de uma economia solidária e compartilhada entre sua população, que produz o necessário e suficiente para todos em uma cadeia de dependência produtiva entre todos. A produção é distribuída e adquirida pela população com dinheiro produzido pela própria Vila, não possuindo, por isso mesmo, pessoas pobres ou ricas.
Notável é o sistema de palafitas que foi construído em 1950 num local central da Vila, denominada Baía dos Tuiuiús (ave nativa do pantanal de beleza ímpar). Na região central se encontra bares rústicos com arquitetura simples e belíssima em que ocorrem saraus, exposição de pinturas, blues, MPB, rock’n roll ao estilo Brown e Presley, declamação de poesias, repentes, e várias outras manifestações artísticas de uma terra que vive arte. A margem dessa região o Rio Paraguai já foi utilizado para o trajeto Corumbá-Cáceres na década de 30 razão pela qual construíram um cais com arquitetura em pequenas colunas romanas. Uma gôndola faz o trajeto de atravessar o Rio para a margem oposta, ao estilo Veneza, para que as pessoas freqüentem um Restaurante típico com cardápio maravilhoso e saboroso. Deste restaurante começam os caminhos em palafitas que levam a uma aventura segura por parte da fauna e flora do local.
Caudoloso e piscoso o Rio a Vila é bem servida de um sistema de ribeirinhos que realiza a pesca e mantém como alimentação básica o peixe. Há rígido controle da própria população para que não incorra em tamanha pesca que impeça a alimentação futura de todos.
Além dos bares, tipo Bodegas existentes na Europa, as famílias locais possuem o costume de realizarem acampamentos em época de seca, momento em que ocorre congraçamento entre as pessoas de modo a articularem novos rearranjos para tornar a Vila com melhor qualidade de vida. Gente essa simples, alegre, culta e não muita afeita a forasteiros turistas (compreensível pela própria beleza e organização do lugar), mas que cultiva um sistema de visitas e festas entre si, tornando a Vila uma comunidade de todos e feliz.
A educação formal inexiste, se faz no cotidiano com as próprias pessoas em seus afazeres profissionais e domésticos. Incrível notar-se a utilização de francês e espanhol com naturalidade entre as gentes e um gosto pela arte musical e pintura sem igual.
Viva a Vila do Sonho a cidade mais surreal e charmosa do mundo!!!