Escrevo-lhe de momento, meu amigo Direito, mas tenha coração sangrando e mente aberta para compreender as palavras que vos provocará metaforicamente. Tentarei, em breves traços, comprometer-te ante a Vida fora de suas formas, conveniências e padrões. Não espere lógica naquilo que é próprio das incoerências que a Vida pode lhe acarretar. Tenha consigo sempre um patuá, um amuleto, destes que signifique para você tudo o que o infinito, imperceptível para a maioria, possa lhe apresentar como crença num amanhã, num outro dia repleto de instantes. Para a Sabedoria, meu Caro, instante é uma espécie de encontro entre a eternidade e o tempo. Tenha vários instantes postados em seu patuá, faça-o seu amuleto.
Por isso mesmo, fotografe o quanto possível, em sua memória, as passagens em sua Vida, daquelas pessoas que realmente lhe causaram sorrisos arco-íris, dores-ser, alegrias do conhecer, aquelas que lhe possibilitaram um infinito horizonte. Dê asas ao conhecimento tecido pela amizade e compartilhamento de existências no cotidiano, e não se esqueça de cultivar a lembrança daquelas dificuldades que lhe foram apresentadas para serem enfrentadas, tornando-o Hércules.
Em algumas partes do mundo vivido não há possibilidade do infinito, muito menos compartilhamento de sorrisos, porque se apresenta metodicamente um mundo formal e fechado, a uma juventude rebelde e indignada como a que pretendo para você. Jovem Direito não seja um arcaico idoso!
Tudo será mais simples se em tenra idade você criar um escudo imaginário em seu Ser, impedindo todas as ondas depreciativas e reais que vendem crenças ilusórias de um mundo inexistente, posto contemplativo do ter e de uma riqueza inalcançável aos comuns trabalhadores e trabalhadoras deste País, por mais “doutor” que, você como trabalhador, seja ou queira ser Direito. A ausência desse manto protetor lhe possibilitará enfrentar presenciamentos de exclusão da Vida, gerando uma sensibilidade crítica e transformadora das realidades de injustiças sociais presentes em tempos atuais. A opção será só sua e talvez a Alegoria da Caverna lhe seja muito útil para melhor compreender o que lhe escrevo.
Acredite Direito, você deverá optar pelo bloqueio da realidade e criação de um mundo imaginário de posição social a ocupar e riquezas a conservar, distanciando-se de seu próprio Ser. Ou, poderá lançar-se à Vida, deixando de contemplá-la para vivê-la em seus instantes e possibilidades infinitas, tornando-se um ativista apaixonado no desempenho da profissão a que se propor. A riqueza conquistada será a sua “eternidade jovial” compartilhada entre amigos.
Não se esqueça que a segunda opção nada mais lhe oferecerá do que o gosto feliz da paixão e caminhos compartilhados, porque vividos com outros na amizade do conhecer e compreender-se.
Afaste-se da contemplação da posição ocupada, pois não apresentará o seu Ser, mantendo-o retido por escudo imaginário que o impedirá de desnudar-se.
Saiba, meu amigo, você encontrará muitos contemplativos e será o momento de postar-se por inteiro, digno e rebelde, promovendo a ruptura desse manto protetor, para que sejam despidos e tornados visíveis. Ao promover esse desnudamento você será afastado, porque efetivamente cumpriu com seu papel de desmascarar a realidade posta.
Não fique taciturno quando lhe impingirem a pecha de subversivo ou caritativo, porque ao assim estigmatizarem-no nada mais fazem do que a afirmar a possibilidade do infinito que tanto lhe apetece. Sorria porque compreendem o seu Ser e possibilitam a tantos outros essa reafirmação.
A você, Direito, cumpre um logo caminho de construção em conjunto com seus amigos. Por estes rincões ainda és muito jovem, muito embora já tenha conquistado alguns corações-leões em razão da iniciativa de novos amigos e companheiros em postá-lo frente a frente com a sua história e origem social. Não fique abatido se ainda não compreenderam a sua Vida e apenas te observam estranhamente pela sua forma, promovendo toda sorte de manuseio de sua sabedoria. Acredite tão-apenas naquilo que te aguçará os sentidos e lhe removerá do comodismo. Confie, com todas as possibilidades e forças que a esperança lhe reserva, em Ser não apenas para si, mas compromissadamente para o coletivo.
Agradeço a generosidade dos entusiastas e amigos – 9º semestre/UNEMAT – desse menino levado chamado Direito, por terem oportunizado o reencontro da criança silenciada com a sua origem e conteúdo: a sociedade e seus problemas sociais.