Os textos que se seguirão, na categoria Universidade Popular Comunitária, pretendem visibilizar um Projeto ousado, diferenciado e original de educação na América Latina. Infelizmente esse processo de construção tem sido obstaculizado na cidade de Cuiabá/MT pela administração municipal, impedindo que se transforme em uma referência educacional para o País e para outros países. Ofereço, portanto, a reflexão sobre a UPC realizada por vários profissionais da educação engajados em um revolução educacional.
Um breve histórico
A Universidade Popular Comunitária – UPC teve seu inicio em 2002, no Bairro Osmar Cabral, atendendo a 105 adultos, que não haviam concluído o Primeiro Grau.
A idéia da UPC nasce do dialogo entre o Secretario Municipal de Educação Carlos Alberto Reyes Maldonado e vários professores da Microrregional Hebert de Souza, que discutiam um projeto educativo único e adequado as necessidades desta região da cidade.
Com a filiação da cidade de Cuiabá a Associação Internacional das Cidades Educadores, o governo assume junto a sociedade o compromisso de compreender a cidade como um espaço educativo e desenvolver ações que viabilizem esta compreensão no coletivo. Para tanto é necessário aprofundar o conhecimento da realidade em que se vive. Para o conhecimento desta realidade e dos sujeitos envolvidos no processo de elaboração do projeto educativo torna-se necessário responder a três questões básicas: Quem somos nós? Quem são nossos alunos? Quem é nossa comunidade?[1] Buscando responder estas questões foi um levantamento socioeconômico realizado na região a partir da comunidade escolar, envolvendo pais, alunos, professores e outros voluntários, que foram de casa em casa mapeando as condições de vida, e as principais necessidades da população local. Estes dados vêm sendo atualizados anualmente e evidenciam a necessidade de um espaço educativo especifico para adultos que contribuísse não só com a escolarização, pois muitos nunca tinham ido a escola, o que interferiam na relação entre pais e filhos, muitos pais descrevem a dificuldade de acompanhar o processo de escolarização de sues filhos, mas também a dificuldade de inserção no mercado de trabalho, devendo este espaço educativo contribuir também com as necessidades de inserção desta população na esfera produtiva.
A Microrregional Herbert de Souza fica na região sul da cidade e dista cerca de 25 Km do centro. Compreende uma região eminentemente agrícola, onde se encontram pequenas chácaras, e atualmente alguns Conjuntos Habitacionais, com pouca infraestrutura. Na região não há supermercados, postos de correio, banco, hospitais ou policlínicas e nem mesmo Escolas de Segundo Grau, só recentemente passou a contar com uma creche. Sendo considerada segundo estatísticas apresentadas mo Mapa de Violência[2], como sendo a região de maior percentual de crimes contra a vida.
Decorrendo dos trabalhos da microrregional a concepção da UPC, como um espaço destinado a educação de adultos que oferecesse a esta população educação em diferentes níveis, da alfabetização a pós-graduação, e que possibilita-se o desenvolvimento de espaços produtivos alternativos a partir da verticalização de conhecimentos, habilidades e competências que a população local possui. O conceito da UPC reafirma a Universidade como tempo/espaço de educação de adultos, pois se todos tivessem o acesso a educação quando adultos estariam na universidade, favorecendo a auto-estima dos que integram o projeto, pois estes não freqüentam a escola, este é o espaço dos filhos, não estão voltando, não estão em deficit. Mas também recupera a idéia da Universidade como espaço de circulação do saber,de circulo de cultura .
Para implementação do projeto foi realizado uma seleção interna entre professores da rede em dezembro de 2001. Constituí-se uma equipe multidisciplinar que após um período de dois meses se subdividiu uma parte ficou trabalhando nos cursos para profissionalização dos funcionários da rede, outra continuou a discutir o projeto da UPC. Esta discussão envolveu a recomposição da equipe que ficou reduzida a dois professores, a discussão com professores da rede trabalhavam com a Educação de Jovens e Adultos, e com a comunidade. A equipe de professores utilizou como critério para a recomposição a aglutinação de professores que tivessem experiência em trabalhos comunitários, ONGs, Movimentos Sociais, etc. As reuniões com professores do EJA, se constituíram em fator importante para conhecer as dificuldades e necessidades, do trabalho educativo com esta faixa etária. Os dados apontavam a necessidade de um projeto educativo mais específicos para a população adulta. O índice de perda do EJA era de 51% no primeiro segmento e de 38% no segundo. E os depoimentos dos professores demonstravam a inadequação do projeto educativo em curso, uma proposta generalista na realidade a mesma ofertada nos cursos oferecidos a jovens e adolescentes, as necessidades da população adulta. As reuniões com lideranças e comunidade foi importante para conhecer a realidade da microrregional e para própria construção do projeto, tiveram lugar nas Associações de Moradores, Escolas e na Secretaria Municipal de Educação.
O grupo de professores e representantes da comunidade escolheram juntos o local de funcionamento, e fizeram a mobilização para o processo de matricula. O primeiro campus recebeu o nome da Microrregional Herbert de Souza, começou a funcionar em 7 de outubro e foi inaugurado no dia 19 de outubro de 2002. Contando inicialmente com 5 professores e 105 acadêmicos, oferecendo inicialmente a Educação Básica. A primeira turma conclui em outubro de 2004 o ensino fundamental
Inspirados nos resultados alcanças na experiência do campus Herbert de Souza, lideranças da Microrregional Paulo Freire solicitaram ao prefeito um campus da UPC na região oferecendo o Centro Comunitário do Jardim Industriário II como sede. O Campus Paulo Freire foi inaugurado no dia 3 de maio de 2003 e iniciou suas atividades em julho do mesmo ano atendendo a 280 discentes.
Processo semelhante aconteceu, nos outros dois campi o Bela Verena no CPA e o Elisa Bocaiúva no Dom Aquino.
O Campus Bela Verena tem sua sede no espaço da Obra Kolping, iniciando suas atividades em 9 de dezembro de 2003, e atende a 280 discentes, sendo inaugurado no dia sete de abril de 2004.
O Campus Elisa Bocaiúva tem sua sede em escola estadual com o mesmo nome, repassada ao município para sediar a UPC.
Ainda em outubro de 2004 tem inicio a implantação de mais um campus da UPC na região leste da cidade, no bairro Pedregal.
[1] Documento sobre as Microrregionais, Secretaria Municipal de Educação, Cuiabá, 2001.
[2] VIANA, Gilney e MACIEL, João O. F. “Mapa da violência de Cuiabá”. Editado pelo Gabinete do Deputado Estadual Gilney Viana, PT/MT, 2000.
Infelismente nossos governandes não conseguiram compreender que a UPC não é um projeto político, mas um projeto educativo que nasce do desejo de realizar estudos com jovens e adultos com uma metodologia diferenciada.
Por: Suely Nobre em 11/02/2009
às 14:56