Em 1803, durante o processo de secularização pelo qual o mundo moderno ainda passava para se solidificar, foram econtrados na Abadia de Benediktbeuern (beneditinos), na Bavária, 200 poemas e canções medievais, escritos por monges eruditos (goliardos) ou eclesiáticos anônimos que contrariavam o regime as leis eclesiásticas da época. A coleção foi publicada em 1847 sendo denominada “Carmina Burana” (Canções de Beurn). Carl Orff, descendente de uma família de eruditos e soldados de Munique, muito cedo encontrou os escritos e arranjou-os para solistas e coros. Foi Orff, em 1936, o responsável pela musicalização de Carmina Burana, e seus direitos estão sob a responsabilidade Shott Musik International.
“Esta cantata é emoldurada por um símbolo da Antigüidade — o conceito da roda da fortuna, eternamente girando, trazendo alternadamente boa e má sorte. É uma parábola da vida humana exposta a constante mudança. E assim o apelo em coral à Deusa da Fortuna (“O Fortuna, velut luna”) tanto introduz quanto conclui a obra, que se divide em três seções: O encontro do Homem com a Natureza, particularmente com o Natureza despertando na primavera (“Veris leta facies”), seu encontro com os dons da Natureza, culminando com o dom do vinho (“In taberna”); e seu encontro com o Amor (“Amor volat undique”)”. (http://www.nautilus.com.br/~ensjo/cb/) Neste site você encontra a tradução de toda e musicalização de Orff.
| Oh, Fortuna, | |
| velut luna | Oh, Fortuna,
variável |
| statu variabilis, | como a lua, |
| semper crescis | sempre cresces |
| aut decrescis; | ou minguas; |
| vita detestabilis | vida detestável |
| nunc obdurat | ora frustra |
| et tunc curat | ora satisfaz |
| ludo mentis aciem, | com zombaria os desejos da mente, |
| egestatem, | à pobreza |
| potestatem | e ao poder |
| dissolvit ut glaciem. | dissolve como se fossem gelo. |
| 2. | 2. |
| Sors immanis | Sorte monstruosa |
| et inanis, | e vã, |
| rota tu volubilis, | tu, roda a girar, |
| status malus, | a aflição |
| vana salus | e o vão bem-estar |
| semper dissolubilis, | sempre se dissolvem |
| obumbrata | tenebrosa |
| et velata | e velada |
| michi quoque niteris, | atacas-me também; |
| nunc per ludum | agora por teu capricho |
| dorsum nudum | costas nuas |
| fero tui sceleris. | trago sob teu ataque. |
| 3. | 3. |
| Sors salutis | Sorte, senhora do bem-estar |
| et virtutis | e da virtude, |
| michi nunc contraria, | estás agora contra mim; |
| est affectus | ? |
| et defectus | ? |
| semper in angaria; | ? |
| hac in hora | nesta hora |
| sine mora | sem demora |
| corde pulsum tangite, | tocai as cordas; |
| quod per sortem | pois que a sorte |
| sternit fortem | esmaga o forte |
| mecum omnes plangite. | chorai todos comigo. |
As relações econômicas capitalistas já formadas implicavam a uma miserabilidade de uma grande parcela da população. Os poemas foram encontrados em 1803. Qual a real data deles? Assinalam pertencerem ao século XIII. Em pleno período feudal as forças contraditórias das classes já estavam presentes indicando um sistema econômico diferente a se formar: capitalismo.
Além dessa possibilidade interpretativa a leitura das traduções indica poesias sobre temas satíricos e burlescos, tendo sempre uma crítica sagaz aos costumes da época e a vida religiosa. As poesias apontam um ideal de vida epicurista, exaltando o carpe diem.