O pensamento crítico tem sido relegado a um plano de esquecimento no País. Manoel Bomfim, intelectual e militante sergipano, nascido em 1868 na cidade de Aracajú, em 1903 escreveu “A América Latina: males de origem”, editado em 1905, fazendo uma defesa radical da gente brasileira contra as propostas teóricas discriminatórias alienígenas propugnadas pelo francês Jean Gobineau e reproduzidas no Brasil por Sílvio Romero, Varnhagen e tantos outros contemporâneos de Bomfim.
Bomfim foi a voz altiva e crítica a este pensamento conservador valendo-se da mesma tese utilizada pelos detratores do povo brasileiro, darwinismo social, para ratificar a Europa colonizadora como “parasitas” da riqueza alheia. Eleva assim o índio e o negro à condição de pessoas plenamente capazes de participarem ativamente na formação do Estado brasileiro democrático, considerando-os os principais artífices na construção de uma verdadeira nação. Para Bomfim a deturpação no modo brasileiro de governar, repleto de privatismo na coisa pública, menos se deve a gente brasileira, mas mais à cobiça, avareza e a preguiça da classe dirigente que ocupou o território brasileiro desde o “achamento”. Para Cleiton Ricardo das Neves, “o pensamento de Manoel Bomfim está inserido no rol de intelectuais que iniciaram uma tradição de defesa americanista pautada na valorização da mestiçagem”.
A mudança necessária no País para alçá-lo à condição de “civilizado” não se relacionava a raça do povo, já defendia Bomfim em 1905, mas residia na promoção de uma educação popular gratuita à toda a gente brasileira. Apenas por meio do processo educacional o Brasil poderia tornar-se uma grande nação social democrata.
A vida e obra de Bomfim inscreve-se na defesa intransigente da formação de um processo educacional brasileiro que capacite o povo a participar ativamente nas decisões políticas levadas a efeito pela elite política ocupadora do poder. Desde primeiro momento Bomfim foi o intelectual brasileiro que propugnou o rechaço às teses racistas européias do século XIX. Sua obra legou para o País um libelo à democracia participativa miscigenada brasileira. Por qual razão sua obra ficou adormecida por mais de 70 anos no Brasil? Quais forças silenciaram o ativista crítico sergipano? Caso a tese de Bomfim tivesse encontrado ressôo na elite dirigente brasileira do século XX, toda a discussão do século quanto a degeneração do povo devido a sua raça não teria sentido algum.
Atualmente, tem-se alguns trabalhos publicados acerca de Manoel Bomfim, entretanto, nenhum deles promove a sua aproximação com a formação do Estado Social Democrata brasileiro. Cumpre a este projeto deslindar essa possibilidade. O primeiro trabalho de fôlego a recuperar o ideário de Manoel Bomfim foi o de Aluisio Alves Filho e, muito posteriormente, o de Ronaldo Conde Aguiar , publicado no ano de 2000, pouco antes, em 1995, a editora Topbooks havia reeditado algumas obras do autor sergipano. Anterior a Aguiar, nas obras clássicas da Ciência Social brasileira, do século XX, desde Gilberto Freyre, Raymundo Faoro, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Junior, Manoel Bomfim não merece sequer uma citação. Darcy Ribeiro em 1995, na sua edição de “O povo brasileiro” faz justiça ao nome de Bomfim defendendo-o como primeiro sociólogo genuinamente brasileiro.
Bomfim tem provocado, agora, com suas reedições, o despertar de uma parte da corrente crítica da Ciência Social e Política brasileira em aprofundá-lo e alçá-lo à legítima e justa condição de primeiro sociólogo de originalidade tupiniquim (ou seja sem ter se apegado as teses européias). Se o aprofundamento das idéias de Bomfim ainda está por vir, imagine, portanto, as possibilidades de aproximação de suas idéias com a defesa de formação de um Estado Social Democrático a partir de uma revolução educacional brasileira com participação ativa do povo brasileiro.
Tem-se aqui a ousadia um intelectual, no início do século XX, em defender uma relação horizontalizada entre a Sociedade Civil (povo – índio e negro) com o Estado. Numa época em que o coronelismo e a hierarquia dirigente comandava o País. Qual o espaço do Direito na ordem de idéias de Manoel Bomfim? Nas relações entre Sociedade e Estado como se tecem as relações entre o povo, classe dirigente e ambiente ? Aluízio Alves Filho indica a utilização diferenciada do referencial teórico disponível à época como o ponto de ruptura de Bomfim com a maioria de seus contemporâneos. Alves Filho analisa a obra de Bomfim, especialmente A América Latina, Males de Origem, na condição de um texto, de uma reflexão posta na contra corrente daquilo que estava em voga. Hilton da Costa observa que Manoel Bomfim ao invés de buscar no povo mestiço ou no meio tropical as responsabilidades pelo “atraso” do Brasil, ele apontaria para as elites dirigentes como as reais culpadas. Culpadas pela inabilidade de gerenciar o país, por negligenciar aspectos básicos para a construção de um país. O aspecto mais básico para Bomfim, na indicação de Alves Filho, seria a educação, especialmente a popular. E uma educação diferente da “educação bacharelesca”, que na visão de Bomfim era a vigente.
O investimento no povo seria o ponto de partida para o rompimento com o “atraso”. Nesta direção, Bomfim, ao propor e incentivar o investimento na “instrução popular”, faz lembrar das indicações de Joaquim Nabuco sobre os procedimentos a serem tomados no pós-abolição. A perspectiva de Bomfim sobre a educação popular tinha um obstáculo teórico, de acordo com Aguiar: como ampliar a educação popular e sensibilizar “uma sociedade excludente, dominada por uma classe dirigente oligárquica e refratária que se nutria, justamente, do atraso e ignorância do povo brasileiro?”
Apenas um processo revolucionário levaria o povo à transpassar a situação predatória com a qual a elite dominante dirigente do País os imputava. Como se processaria essa revolução? Responde Bomfim:
“Sem dúvida: é indispensável que a massa da nação brasileira suba a nível – mental e social, mediante sistemática educação. Mas, tanto só se realizará quando o povo for senhor dos seus destinos. No mesmo lance em que se esbocem as novas formas políticas e sociais, com as instituições de legítima justiça se definirá o ideal de educação, e criar-se-ão os modelos e processos, em correspondência com o mesmo ideal. Aqui, não se dará nunca que os dominantes preparem a massa popular para ser efetiva soberania da nação. Equivaleria a realizar própria revolução. Mesmo que a prática da democracia se faça com absoluta sinceridade, o grande número, absorvido pelo ganha-pão, não terá meios, nem lazeres – para o tirocínio de preparo geral. Destarte, os dirigentes democratas podem derrear-se em liberalismo, multiplicar os cuidados em prol da instrução e da educação, sem que isto venha redimir a maioria – os trabalhadores da inferioridade em que se encontra e que reflete os formidáveis privilégios econômicos e financeiros a que essa maioria tem de servir”.
Bomfim não era um revolucionário marxiano strictu sensu, muito embora tenha sofrido influência das obras de Karl Marx, pois dedicou a vida à luta contra a elite predatória que ocupava o poder (burguesia). Indubitavelmente era um democrata que encontrava nas teses marxianas um caminho para interpretar a realidade social brasileira. A liberdade era, em Bomfim, condição de realização material da democracia e de um País próspero. E essa liberdade apenas se alcançava mediante a instrução propiciadora do indivíduo em conduzir-se por si mesmo para uma vida social autônoma. “Ser livre é antes de tudo escapar da escravidão que a ignorância impõe, da escravidão que em nós mesmos reside, e trazer a inteligência a iluminar os atos e a vida.”
Portanto, a maior tarefa de um governo democrático seria o de expandir a educação. Para isso seria necessário um grande esforço da classe dirigente a fim de superar os “vícios bragantinos” e atender as necessidades das massas, levando a pátria a uma situação mais confortável diante do “mundo civilizado”. O “progresso” do Brasil estava, segundo Bomfim, intimamente ligado à expansão da educação. Para o sociólogoa, médico e educador sergipano:
“Em vez de esperar que os analfabetos, entusiasmados pela ciência, se combinem e se cotizem, e venham organizar escolas para si e para os filhos, ou que, desiludidos da própria ignorância, nos venham pedir instrução, vamos nós oferecer-lhes essa instrução, que eles desconhecem e que os erguerá. Comecemos pelo principio: difusão do ensino primário. Forcemos a nota, numa campanha generalizada; chamemos à atividade quantas inteligências possam acudir ao nosso apelo.”
Bomfim bradava a todos os cidadãos pessimistas com a política pública governamental e ansiosos por “desenvolvimento”, para auxiliarem no esforço de educar. Como educador sabia das dificuldades do caminho, entretanto, como utopista, acreditava que seu ideal pudesse se tornar realidade.
“Utopia… Utopia… Repetirá a sensatez rasteira. Utopia, sim; sejamos utopistas, bem utopistas; contanto que não esterilizemos o nosso ideal, esperando a sua realização de qualquer força imanente à própria utopia; sejamos utopistas, contanto que trabalhemos”.
Liberdade e justiça são dois ingredientes indispensáveis na democracia, conforme explanava Bomfim. Os homens livres, diferentemente dos escravos, precisam de liberdade plena para organizar suas atividades. Assim, a educação é fundamental nesse processo de liberdade.
Para o educador sergipano, a República brasileira pouco se caracterizava como democracia, a iniciar pela etnologia oficial sobre a qual os dirigentes brasileiros “antipatrioticamente” afirmavam o povo brasileiro como inferior em relação ao continente europeu. Ressaltemos que no contexto histórico de Bomfim a alfabetização era requisito para o exercício do direito de votar. Para Bomfim, a República era uma mentira, a democracia, impossível de se realizar sem que a população a compreendesse e participasse de sua construção. A educação política poderia solucionar esse impasse. ”A resignação não ajudaria nesta obra regeneradora, era preciso extrair toda força de que a população era dotada, todo valor humano. Com esperança em um futuro melhor e com grandes esforços dos idealistas o Brasil poderia alcançar a condição de “senhor dos seus destinos”.
Bibliografias consultadas:
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